Reequilibrar a microbiota para sair da depressão?
Será que a microbiota intestinal pode influenciar a nossa saúde mental ao afetar a nossa energia? Existe um estudo realizado em seres humanos e ratos que explora esta relação entre as bactérias intestinais, o metabolismo e os sintomas depressivos.
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Sobre este artigo
E se o restabelecimento da microbiota intestinal facilitasse a luta contra a depressão, fornecendo um novo impulso energético ao nosso organismo?
A depressão não afeta apenas o humor e as funções cognitivas. É frequentemente acompanhada por alterações no metabolismo energético e na nossa microbiota intestinal, tal como foi confirmado por um estudo¹ realizado com 100 doentes que sofriam de perturbações depressivas graves e 68 indivíduos saudáveis que serviram de grupo de controlo.
Perturbação depressiva grave
A perturbação depressiva grave (PDG) é uma doença psiquiátrica altamente incapacitante e que constitui um fardo mundial considerável, com uma prevalência ao longo da vida que varia entre 10% e 20%.¹
1,5 A depressão é cerca de 1,5 vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens.²
10% A nível mundial, mais de 10% das mulheres grávidas e das que deram à luz recentemente sofrem de depressão (depressão perinatal e pós-parto).²
Ligação entre a microbiota, o metabolismo e a depressão
Os resultados são indiscutíveis: em casos de depressão, várias vias de produção de energia ficam afetadas, com excesso de determinados metabolitos (lactato, glutamato, arginina, etc.) e défice em outros (glicose, ornitina, etc.). Estas perturbações metabólicas são, por sua vez, acompanhadas de sintomas mais graves: mais ansiedade, mais sintomas depressivos e mais problemas cognitivos.
Mas não só! Os autores demonstraram que a microbiota intestinal dos doentes com depressão também difere: existe disbiose, com cerca de uma centena de espécies bacterianas cuja abundância é superior ou inferior à observada nas fezes dos indivíduos de controlo saudáveis.
E se estiver tudo ligado? Efetivamente, entre esses microrganismos em excesso ou em falta no nosso intestino, há vários que podem modificar o nosso metabolismo energético e afetar de forma negativa o nosso estado de espírito. E outros que, inversamente, contribuem para melhorar a nossa saúde mental, mediante uma pequena ajuda às bactérias benéficas presentes no nosso intestino. Mas, antes de se analisar essa contribuição, era ainda necessário demonstrar uma relação de causa e efeito. Essa tarefa já se encontra concluída.
4% Calcula-se que 4% da população sofra de depressão, incluindo 5,7% dos adultos (4,6% dos homens e 6,9% das mulheres) e 5,9% das pessoas com 70 anos ou mais.²
332 milhões Em todo o mundo, cerca de 332 milhões de pessoas sofrem de depressão.³
3.ª O suicídio é a terceira causa de morte entre os jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos.²
Uma experiência em ratinhos para testar a causalidade
Uma equipa de investigadores submeteu ratos a uma situação de stress crónico que induziu comportamentos semelhantes aos da depressão. Tal como acontece nos pacientes com depressão, a respetiva microbiota intestinal e o seu metabolismo energético sofreram alterações.
O estudo é centrado na microbiota, a comunidade bacteriana intestinal, e nas suas ligações com o metabolismo e com a saúde mental.
Estudos anteriores tinham já revelado alterações bacterianas em doentes com perturbação depressiva grave, mas as relações estabelecidas com o metabolismo eram ainda, em grande parte, de natureza não causal.
Os investigadores transplantaram em seguida, para os tais ratos agora depressivos, as respetivas microbiotas fecais, colhidas antes de terem sido submetidos ao stress e ao desgaste emocional. O resultado deste transplante fecal , denominado autólogo (o que significa que cada rato recebe as suas próprias fezes), foi a correção de várias anomalias metabólicas e uma melhoria da saúde mental. O funcionamento das mitocôndrias –organelas celulares que fornecem energia – de certas regiões do cérebro relacionadas com o humor e com a memória, foi igualmente restabelecido.
“O transplante reintroduz no intestino, portanto, bactérias colhidas antes do stress".
“No que se refere à saúde mental, estes resultados reforçam sobretudo o interesse dedicado às interações entre o intestino e o cérebro, sem, no entanto, demonstrar, no ser humano, que a intervenção neste eixo tenha efeitos terapêuticos”.
E no caso do ser humano?
Esta relação causal, por enquanto, apenas foi demonstrada em animais. É necessário ainda determinar, através de outros estudos, se existe o mesmo mecanismo em doentes humanos que sofram de perturbações depressivas graves e, sobretudo, se agir sobre a respetiva microbiota virá algum dia a ter utilidade terapêutica. Enquanto se aguarda por eles, para levantarmos o ânimo, podemos sempre cuidar da nossa microbiota intestinal. Como? Através da alimentação, dando preferência, por exemplo, às frutas cítricas e evitando os refrigerantes.
Três exemplos para uma melhor compreensão
Nas pessoas com depressão, o stress crónico inibe as mitocôndrias (centrais energéticas das nossas células) e obriga as células cerebrais a recorrerem a um sistema alternativo (glicólise anaeróbica), o que provoca uma acumulação anormal e prejudicial de lactato no sangue e no cérebro. Excesso de lactato esse que piora os comportamentos depressivos e os déficits de memória. Ora, a bactéria intestinal Anaerostipes hadrus pode atenuar a ansiedade e a depressão, revertendo essa disfunção glicolítica anaeróbica, reduzindo o lactato no cérebro e permitindo que as mitocôndrias voltem a funcionar devidamente.
Nas pessoas com depressão, o glutamato tem tendência a acumular-se em excesso no sangue e no cérebro. Os níveis anormalmente elevados de glutamato podem prejudicar o metabolismo energético do cérebro e agravar os sintomas. A bactéria intestinal Anaerostipes hadrus poderá desempenhar um papel potencialmente benéfico na moderação da depressão e da ansiedade: essa ação protetora exercer-se-á através da redução de determinados metabolitos-chave, entre os quais o glutamato, mas também o lactato e o ácido isocítrico (ou isocitrato).
Nas pessoas com depressão, a ornitina pode estar presente em níveis muito baixos no sangue e no cérebro. Este défice pode levar à acumulação de metabolitos tóxicos (menor detoxificação do amoníaco, aumento da produção de glutamato) e privar o cérebro de substâncias neuroprotetoras (uma vez que a ornitina é um precursor indispensável para a sua síntese), o que aumenta a vulnerabilidade à depressão, à fadiga e ao declínio cognitivo. No entanto, várias bactérias intestinais, como a Dorea formicigenerans ou a Eubacterium ramulus, aparentam ser fontes importantes de ornitina para o hospedeiro.
1. Lei P, Qi Z, Ma Q et al. Gut microbiota reshapes host energy metabolism to modulate depressive behaviors. Gut Microbes. 2026 Dec 31;18(1):2662556.
2. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression.
3. 2021 Global Burden of Disease.
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