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Sobre este artigo

Publicado em 16 Março 2026
Atualizado em 18 Março 2026

Pão, chocolate, cerveja, queijos, etc. Em todo o mundo, os alimentos fermentados conquistaram com mérito as nossas mesas. Quer se trate de um fenómeno de moda ou de uma tendência de fundo, alguns deles têm vindo a ganhar adeptos nos últimos anos. Quais são as razões para essa recente popularidade? É que eles assumem a ofensiva para o restabelecimento da ordem nas fileiras da nossa microbiota. Desde que não exageremos, o consumo regular de alimentos fermentados pode realmente reforçar a nossa saúde intestinal.1,2

Eles cuidam de nós desde tempos imemoriais

Os alimentos fermentados sempre nos conquistaram. Os gastrónomos reservam-lhes um lugar de destaque em todas as ementas, de tal forma que constituem mais de um terço do consumo alimentar em alguns países. Durante muito tempo produzidos de forma artesanal, muitos deles passaram depois a ser fabricados industrialmente após a invenção das conservas. Trata-se de uma grande vantagem em termos de segurança alimentar, uma vez que a fermentação tem o mérito de travar a proliferação de bactérias patogénicas, evitando assim a utilização de diferentes aditivos.

Eles asseguram o melhor dos aprovisionamentos

Já em 1857, Louis Pasteur demonstrou que, quando um alimento fermenta, os micróbios nele contidos modificam a sua composição nutritiva e as suas propriedades bioativas. Por outras palavras, o seu tempo de conservação prolonga-se, os sabores modificam-se e o seu efeito na nossa microbiota intestinal é diferente. Este processo funciona como uma verdadeira “máquina de combate” que permite enriquecer os alimentos com nutrientes e micróbios vivos benéficos para o nosso “segundo cérebro”.3 As bactérias, leveduras, fungos e bolores que circulam pelo nosso intestino parecem ter um papel importante na prevenção de certas doenças relacionadas com desequilíbrios na microbiota intestinal, como a diabetes tipo 2 e a obesidade.4, 5

The psychobiotic diet: might fermented or prebiotic-rich foods reduce stress? 16.02.2023 Regime psicobiótico: alimentos fermentados ou ricos em prebióticos para reduzir o stress? Mais informação

Eles lutam simultaneamente em todas as frentes

Três peças de picles e um copo de kombucha a cada fim de semana não fazem milagres. Para se ter um intestino são, é necessário ingerir regularmente alimentos fermentados, no âmbito de uma dieta saudável. Só assim é que eles poderão exercer um efeito positivo na microbiota intestinal. E isto, nomeadamente, porque asseguram uma maior diversidade nos microrganismos presentes no intestino. Essa diversidade é imprescindível para promover uma função imunitária eficaz e um metabolismo saudável. Pode até mesmo contribuir para garantir uma boa saúde cerebral e mental, influenciando na prevenção dos fatores associados à depressão, à doença de Alzheimer e à doença de Parkinson.6, 7, 8

Eles atacam as inflamações intestinais

Os alimentos fermentados podem, portanto, minimizar a inflamação intestinal.9, 10 Esta é uma patologia que atualmente afeta principalmente quem vive nas cidades, onde se consome uma grande quantidade de alimentos ultraprocessados. Os alimentos fermentados também têm a vantagem de serem pobres em FODMAP. O processo de fermentação reduz em 40 a 80% a quantidade desses hidratos de carbono que causam desconforto digestivo. Um benefício significativo na prática, que pode fazer com que a síndrome do cólon irritável recue. Muitos dos alimentos fermentados são ainda ricos em vitamina K, conhecida por inibir o desenvolvimento de tumores no cólon.11, 12

Eles atuam como estrategas da função imunitária

A fermentação também induz o desenvolvimento de bacteriocinas, que bloqueiam o crescimento de bactérias nocivas nos nossos intestinos. Os alimentos fermentados podem proteger-nos contra a ação de múltiplos agentes patogénicos, portanto, reforçando a barreira intestinal e minimizando o risco de infeções.13 Alguns deles, como a couve, apresentam inclusivamente um aumento no teor de vitamina C. Outra mais-valia da fermentação para a microbiota: o processo estimula a produção de ácidos gordos de cadeia curta (AGCC). Uma verdadeira vantagem, uma vez que os AGCC também parecem ajudar a regular a função imunitária ao nível do intestino.14

27.01.2023 Legumes fermentados: boas razões para colocá-los no cardápio Mais informação

Eles são ricos em minerais essenciais

Para funcionar de forma adequada, o corpo humano necessita de absorver determinadas substâncias em quantidades suficientes. Nelas se incluem os minerais indispensáveis à vida: ferro, zinco e cálcio. No entanto, diversos alimentos, como os cereais, apresentam um elevado teor de ácido fítico. Embora este nos seja igualmente indispensável, o seu consumo excessivo contribui para a retenção dos minerais ingeridos na barreira intestinal. O processo de fermentação contribui, de facto, através da redução do teor em fitatos dos alimentos, para melhorar a absorção dos referidos minerais.15

Eles batem-se galhardamente contra a intolerância à lactose

Por outro lado, há muita gente que não tolera o excesso de lactose. O desconforto digestivo é tal que por vezes há a necessidade de se alterar radicalmente a dieta. Qual a melhor tática? Consumir mais produtos lácteos fermentados, como os iogurtes e os queijos. É que, embora o leite tenha um teor em lactose demasiado elevado para ser absorvido em grandes quantidades, os laticínios referidos contêm pouca ou nenhuma lactose. Eles regulam o trânsito intestinal e diminuem a flatulência, ao interagirem com a microbiota. Outro benefício notável, o iogurte pode reduzir o risco de diabetes tipo 2.16

Um histórico de serviço irrepreensível

Os alimentos fermentados expõem com segurança a nossa microbiota intestinal a muitos microrganismos. Sim, um gigantesco prato de chucrute malcozinhada pode provocar gases. Mas, desde que devidamente preparados, os alimentos fermentados parecem ter só efeitos positivos para a nossa microbiota. Se, apesar disto tudo, se mantiver reticente, comece por provar pequenas doses dos que considerar mais apetitosos. Ao diversificá-los, descobrirá uma variedade inusitada de sabores que seria uma pena ignorar. Para reforçar a ação deles sobre a microbiota, combine-os, sempre que possível, com produtos ricos em prebióticos, como frutas e sementes. No entanto, atenção, as mulheres grávidas, as pessoas com imunodeficiência e as que sofram de doenças hepáticas devem consultar previamente um médico. Há certos produtos específicos, como o kombucha, que contêm álcool e devem ser consumidos com moderação.

Bons hábitos alimentares para cuidarmos da flora vaginal

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Fontes

1. Mukherjee, A., Breselge, S., Dimidi, E. et al. Fermented foods and gastrointestinal health: underlying mechanisms. Nat Rev Gastroenterol Hepatol.2023. doi:10.1038/s41575-023-00869-x

2. Valentino, V., Magliulo, R., Farsi, D. et al. Fermented foods, their microbiome and its potential in boosting human health. Microb Biotechnol. 2024.17(2):e14428. doi: 10.1111/1751-7915.14428.

3. Taylor BC, Lejzerowicz F, Poirel M, et al. Consumption of Fermented Foods Is Associated with Systematic Differences in the Gut Microbiome and Metabolome. mSystems. 2020; 5(2):e00901-19. doi: 10.1128/mSystems.00901-19.

4. Antonio Molinaro, Pierre Bel Lassen. Imidazole propionate is increased in diabetes and associated with dietary patterns and altered microbial ecology. Nat Commun. 2020 Nov 18;11(1):5881.doi: 10.1038/s41467-020-19589-w

5. Emmanuelle Le Chatelier, Trine Nielsen, Junjie Qin and Edi Prifti. Richness of human gut microbiome correlates with metabolic markers. Nature. 2013 Aug 29;500(7464):541-6. doi: 10.1038/nature12506.

6. Alli SR, Gorbovskaya I, Liu JCW, Kolla NJ, Brown L, Müller DJ. The gut microbiome in depression and potential benefit of prebiotics, probiotics and synbiotics: a systematic review of clinical trials and observational studies. Int J Mol Sciences 2022; 23: 4494.

7. Chen SJ, Chen CC, Liao HY, et al. ; Association of Fecal and Plasma Levels of Short-Chain Fatty Acids With Gut Microbiota and Clinical Severity in Patients With Parkinson Disease. Neurology. 2022 Feb 22;98(8):e848-e858.

8. Jyoti P Tamang, Koichi Watanabe, Wilhelm H Holzapfel. Diversity of microorganisms in global fermented foods and beverages. Front Microbiol. 2016; 7:377. doi: 10.3389/fmicb.2016.00377

9. Nasim SaeidiFard, Kurosh Djafarian, Sakineh Shab-Bidar. Fermented foods and inflammation: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Clin Nutr ESPEN. 2020; 35:30-39. doi: 10.1016/j.clnesp.2019.10.010.

10. Sheng Liu, Wenjing Zhao, Ping Lan, Xiangyu Mou . The microbiome in inflammatory bowel diseases: from pathogenesis to therapy. Protein Cell. 2021 May;12(5):331-345. doi: 10.1007/s13238-020-00745-3.

11. JoEllen Welsh, Min Ji Bak, Carmen J Narvaez. New insights into vitamin K biology with relevance to cancer. Trends Mol Med . 2022 Oct;28(10):864-881. doi: 10.1016/j.molmed.2022.07.002. Epub 2022 Aug 23.

12. Pyo Y, Kwon KH, Jung YJ. Probiotic functions in fermented foods: antiviral, immunomodulatory, and anticancer benefits. Foods. 2024;13(15):2386. doi:10.3390/foods13152386

13.  Hannah C Wastyk, Gabriela K Fragiadakis, Dalia Perelman, Dylan Dahan, Bryan D Merrill , Feiqiao B Yu , Madeline Topf, Carlos G Gonzalez, William Van Treuren, Shuo Han, Jennifer L Robinson, Joshua E Elias, Erica D Sonnenburg, Christopher D Gardner, Justin L Sonnenburg. Gut-microbiota-targeted diets modulate human immune status. Cell. 2021; 184(16):4137-4153.e14. doi : 10.1016/j.cell.2021.06.019.

14. William Fusco, Manuel Bernabeu Lorenzo, Marco Cintoni, Serena Porcari, Emanuele Rinninella, Francesco Kaitsas, Elena Lener, Maria Cristina Mele, Antonio Gasbarrini, Maria Carmen Collado, Giovanni Cammarota, Gianluca Ianiro. Short-Chain Fatty-Acid-Producing Bacteria: Key Components of the Human Gut Microbiota. Nutrients. 2023 May 6;15(9):2211. doi: 10.3390/nu15092211

15. Matin Mohammadi-Kouchesfahani, Zohreh Hamidi-Esfahani, Mohammad Hossein Azizi. Isolation and identification of lactic acid bacteria with phytase activity from sourdough. Food Sci Nutr. 2019 Oct 21;7(11):3700-3708. doi: 10.1002/fsn3.1229. eCollection 2019 Nov.

16. Aune D., Norat T., Romundstad P et col. (2013) Dairy products and the risk of type 2 diabetes : a systematic review and dose-response meta-analysis of cohort studies, American  Journal of  Clinical Nutrition doi: 10.3945/ajcn.113.059030

Tags
Microbioma Flora Microbiota intestinal Alimentício Alimentação Imunidade Digestão Nutrição Dieta

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