Kombucha: promessas científicas ou de marketing?
Madonna, Kourtney Kardashian, Halle Berry... Hollywood só jura por isto. O kombucha é a bebida do momento e está a conquistar adeptos em todos os continentes. Destaque para um chá fermentado, ao qual se atribuem muitos (talvez demasiados) benefícios.
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Sobre este artigo
O kombucha é uma bebida fermentada à base de chá, não alcoólica ou com baixo teor de álcool, que terá surgido na China cerca de 220 a.C.1. É preparado com uma combinação de bactérias e leveduras, as quais formam uma “mãe” (como na produção de vinagre), que é depois adicionada a uma solução açucarada à base de chá. Celebridades, influencers e gurus do marketing “descobriram” recentemente o produto, tornando-o popular no mundo ocidental, onde lhe são atribuídas inúmeras virtudes 1,2.
Mas o que é que a ciência diz, de facto? Quais são os efeitos realmente comprovados para a saúde? Será que as afirmações dos influencers e as promessas de algumas marcas relacionadas com a saúde se justificam?
5 mil milhões de dólares
O mercado mundial de kombucha foi avaliado em cerca de 5 mil milhões de dólares em 2025 e continua em crescimento.
Fonte: Andrade et al.1
O que é que suscita tanto entusiasmo?
A ciência tem demonstrado que o que comemos influencia fortemente a composição e o desempenho da nossa microbiota intestinal, com potencial impacto no funcionamento do nosso organismo e na nossa saúde 2. Como consequência direta, todos os alimentos fermentados têm despertado um interesse crescente devido aos seus compostos bioativos e aos potenciais benefícios que oferecem.
O kombucha não é exceção a esta regra. Oferecendo, além disso, diversos sabores com notas ácidas particularmente marcantes e surpreendentes, conta com uma tradição popular que o define como um “chá da imortalidade” 1. Problema: os influencers e os profissionais de marketing talvez se tenham precipitado um pouco. É que os resultados dos estudos estão longe de serem conclusivos.
Receita de kombucha: uma cooperação entre leveduras e bactérias
O fabrico do kombucha começa pela preparação de um chá açucarado: a uma infusão de chá preto, verde ou Oolong adiciona-se sacarose (açúcar de mesa). Depois desta infusão arrefecer, adiciona-se-lhe uma mistura de bactérias e leveduras, denominada SCOBY* ou “mãe” de kombucha.
Trata-se de disco gelatinoso e espesso que flutua na superfície do chá e é uma verdadeira "biofábrica" na qual as leveduras e as bactérias trabalham em equipa:
- as leveduras decompõem a sacarose do preparado em açúcares simples (frutose e glicose), parte dos quais são transformados em álcool e dióxido de carbono (daí as bolhinhas da bebida);
- as bactérias transformam, em seguida, a glicose e o etanol, produzidos pelas leveduras, em diversos ácidos orgânicos (ácidos láctico, glucónico e acético), o que reduz o pH e confere à bebida o seu sabor acidulado.
Para variar o sabor, é possível adicionar frutas, ervas aromáticas ou especiarias.
Fonte : Andrade et al.1
*acrónimo inglês de Symbiotic Culture of Bacteria and Yeast (cultura simbiótica de bactérias e leveduras).
Resultados ainda pouco conclusivos no que respeita ao ser humano
É verdade que alguns estudos realizados em modelos animais apontam para que o consumo deste chá fermentado possa apresentar benefícios para a saúde 2 : são mencionados, nomeadamente, efeitos anti-hiperglicemiantes (redução dos picos de glicemia prejudiciais), antioxidantes (proteção das células contra a oxidação) e anti-inflamatórios, bem como mudanças na microbiota intestinal (aumento dos lactobacilos) relacionadas com melhorias na saúde metabólica. Mas são resultados obtidos em animais, e não em seres humanos.
E no caso do ser humano? Os estudos de intervenção com kombucha são raros, de reduzida dimensão e, por isso, pouco relevantes. Alguns deles sugerem:
- efeito positivo na glicemia: menor aumento dos níveis de glicose no sangue após as refeições em pessoas saudáveis 3, e redução da glicemia no caso dos diabéticos 4. No entanto, há um outro estudo que não detetou qualquer alteração nesses parâmetros, nem mesmo, aliás, quaisquer marcadores inflamatórios 2;
- efeito benéfico na microbiota intestinal nas pessoas com peso normal 2,5 e nas pessoas obesas 5, com vantagens mais acentuadas neste último grupo 5;
- melhoria dos sintomas intestinais em indivíduos com excesso de peso (kombucha de chá verde associado com uma dieta saudável e hipocalórica) 6 e da obstipação em pessoas com síndrome do cólon irritável (bebida enriquecida com fibras e vitaminas) 7.
Síndrome do Intestino Irritável e microbiota: há uma ligação?
Afinal de contas, o que é que podemos concluir? Em 2025, houve uma equipa que tentou, precisamente, fazer um levantamento de todos os resultados publicados até à altura, ou seja, 8 ensaios clínicos 8. Conclusão? O kombucha poderá ter alguns efeitos positivos modestos na saúde digestiva e na microbiota de determinadas pessoas, bem como em alguns marcadores biológicos. No entanto, os resultados são extremamente heterogéneos e as amostras são pouco expressivas, o que não permite tirar conclusões sólidas sobre vantagens clínicas comprovadas. Aconselha-se prudência, portanto...
Não há alimentos milagrosos, há apenas alimentações equilibradas.
Quais poderão ser os mecanismos?
Se os benefícios para a saúde vierem a ser confirmados, através de que mecanismos é que poderá atuar? Por um lado, a infusão de chá apresenta moléculas potencialmente favoráveis, dependendo do produto utilizado: o chá verde, por exemplo, é rico em catequinas 8, moléculas que reduzem o stress oxidativo. Simultaneamente, em virtude do seu método de preparação, o kombucha é uma fonte de bactérias (nomeadamente bactérias acéticas e lácticas) e de leveduras 2,8. Pois bem, estes microrganismos têm a capacidade de produzirem uma grande diversidade de metabolitos com potenciais efeitos positivos para a saúde 2,8 :
- compostos fenólicos,
- ácidos orgânicos,
- vitaminas, etc.
E ainda há mais. O consumo deste chá fermentado poderá contribuir para o enriquecimento da nossa flora intestinal com bactérias produtoras de
(sidenote:
Ácidos Gordos de Cadeia Curta (AGCC)
Os Ácidos Gordos de Cadeia Curta são uma fonte de energia (carburante) das células do indivíduo, interagem com o sistema imunitário e estão envolvidos na comunicação entre o intestino e o cérebro.
Silva YP, Bernardi A, Frozza RL. The Role of Short-Chain Fatty Acids From Gut Microbiota in Gut-Brain Communication. Front Endocrinol (Lausanne). 2020;11:25.
)
(AGCC) , como o butirato, o acetato e o propionato 2,8. Estes pequenos ácidos gordos, aptos a penetrar na circulação sanguínea, são vistos como particularmente benéficos para a nossa barreira intestinal, o nosso metabolismo e o nosso sistema imunitário 8.
Entre as espécies produtoras de AGCC, há uma que parece estar especificamente associada ao kombucha: a Weizmannia coagulans (anteriormente denominada Bacillus coagulans), que parece colonizar, pelo menos temporariamente, o intestino dos consumidores 2. E há outras bactérias, desta vez ligadas ao metabolismo dos polifenóis, como a Ellagibacter isourolithinifaciens, que poderão igualmente surgir com uma maior presença 2.
Mas, novamente, estamos aqui apenas perante resultados preliminares, baseados em estudos ainda muito limitados.
Alimentos fermentados: um vasto conjunto de benefícios para a saúde
Para terminar, algumas advertências
O kombucha é geralmente considerado uma bebida livre de riscos. No entanto, a variabilidade na composição microbiana dos preparados caseiros, as condições de higiene implementadas durante a elaboração e os riscos de contaminação que lhes estão associados constituem aspetos que requer especial atenção. Alguns estudos isolados referiram casos raros de efeitos adversos após o consumo diário prolongado: náuseas, vómitos ou dores de cabeça 9. Além disso, a produção de etanol durante a fermentação está longe de ser insignificante. Por isso, em caso de dúvida, é aconselhável prudência para mulheres grávidas, crianças pequenas e pessoas imunodeprimidas ou com insuficiência renal 9.