Resistência aos antibióticos: hospitais e clínicas veterinárias sob vigilância
Lutar contra a resistência aos antibióticos (antibiorresistência) exige que não se considerem separadamente as saúdes humana, animal e ambiental, nem dos desafios da medicina humana e veterinária. Ao contrário, uma vigilância coordenada destas resistências poderia revelar-se necessária.
- Descubra as microbiotas
- Microbiota e doenças associadas
- Aja sobre a sua microbiota
- Publicações
- Sobre o Instituto
Acesso a profissionais de saúde
Encontre aqui o seu espaço dedicadoen_sources_title
en_sources_text_start en_sources_text_end
Sobre este artigo
Importante desafio da saúde pública mundial, a resistência aos antibióticos, ou antibiorresistência, designa a capacidade de certas bactérias de resistirem à ação de um ou de vários antibióticos. Para melhor compreender como tais resistências podem circular entre as bactérias, investigadores¹ adotaram uma abordagem “Uma única saúde” (One Health), que considera que a saúde ambiental, mas também a saúde humana e animal, estão estreitamente ligadas. Pois os microrganismos, nomeadamente algumas bactérias, acompanham-nos no nosso quotidiano: alguns estudos mostraram que, em alguns casos, a água da torneira ou do duche poderiam hospedar patógenos; as nuvens poderiam transportar genes de resistência aos antibióticos; e, por fim,que a nossa microbiota intestinal poderia contribuir para a luta contra as resistências etc.
Abordagem integrada e unificadora que visa manter e otimizar de forma sustentável a saúde das populações humanas, animais e ecossistemas humano e animal. Reconhece que a saúde dos seres humanos, dos animais domésticos e selvagens, das plantas e do ambiente no sentido amplo (incluindo os ecossistemas) está estreitamente ligada e é interdependente.
Esta abordagem aplica-se à conceção e à instauração de programas, políticas, legislações e trabalhos de investigação para os quais diversos setores da medicina humana e veterinária comunicam e colaboram para melhorar os resultados em termos de saúde pública. É particularmente pertinente para lutar contra a resistência aos antimicrobianos (emergência de microrganismos resistentes aos tratamentos antibióticos), bem como para garantir a segurança sanitária dos alimentos e da água, melhorar a nutrição, controlar as zoonoses (doenças transmissíveis entre animais e humanos) e assegurar a gestão da poluição.2,3
Diferentes comunidades microbianas
Investigadores analisaram os microrganismos (nomeadamente as bactérias) e os genes de resistência aos antibióticos presentes no ambiente (águas residuais, superfícies) de um hospital e de uma clínica veterinária em Londres. Como? Através da sequenciação metagenómica, um método que permite estudar diretamente todo o material genético e, por conseguinte, cada gene presente numa amostra. É um pouco como se colocássemos todo o conteúdo de uma amostra num misturador e decifrássemos todo o ADN e os genes associados à resistência.
Os resultados mostram que as comunidades microbianas dos dois estabelecimentos são muito diferentes. O hospital apresentava uma maior riqueza de espécies, com algumas bactérias dominantes (cada bactéria contribuía para a composição dessa comunidade microbiana). Por outro lado, os microrganismos estavam distribuídos de forma mais homogénea no ambiente veterinário (associado ao animal), que hospedava não apenas bactérias, mas também fungos e vírus. De todas as bactérias perigosas monitorizadas, potencialmente implicadas numa infeção, apenas os agentes da salmonelose (Salmonella spp.) e da campilobacteriose (Campylobacter spp.) - duas toxi-infeções alimentares - foram encontrados nos dois estabelecimentos. A sua presença foi, contudo, identificada a partir do ADN, sem demonstrar se essas bactérias estavam vivas.
8,7 % De acordo com um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre 55 hospitais repartidos em 14 países, 8,7% dos pacientes hospitalizados apresentavam uma infeção associada aos cuidados (infeção nosocomial).⁴
2,9 % - 40 % A prevalência das infeções nosocomiais está estimada entre 2,9% e 5% na Europa, em 5% na América do Norte, enquanto atingia aproximadamente 40% nalguns países da Ásia, da América Latina e de África.⁵
Genes de resistência... e os seus “transportadores”
Outra constatação: genes de resistência aos antibióticos foram encontrados nos dois estabelecimentos, porém com assinaturas distintas. No hospital, os genes de antibiorresistência considerados como de alto risco para a saúde humana eram mais numerosos; no meio veterinário, os genes de resistência aos desinfetantes de superfície habituais eram omnipresentes.
Os investigadores também se interessaram pelos plasmídeos, pequenos pedaços de ADN capazes de circular de uma bactéria para outra e transportar um ou vários genes, nomeadamente os de resistência aos antibióticos. Mais uma vez, os perfis diferem: as amostras hospitalares continham mais tipos de plasmídeos associados às bactérias envolvidas nas infeções nosocomiais e suscetíveis de transportar genes de resistência aos antibióticos (responsáveis pela antibiorresistência). As amostras veterinárias, por sua vez, apresentavam mais tipos de plasmídeos associados às bactérias Gram-positivo.
Infeções nosocomiais ou infeções adquiridas no hospital
Conjunto de infeções importante na medicina humana, que o paciente não tinha antes da sua admissão no hospital.
Uma vigilância ambiental necessária
Os investigadores consideram que uma sequenciação metagenómica sistematizada poderia ajudar a detetar os reservatórios de resistência aos antibióticos e a melhor compreender os riscos de disseminação entre humanos, animais e ambiente. Este é o âmago da abordagem One Health.
1. Elton L, Lutimba S, Mateos AD et al. Comparison of Environmental Microbiomes, Resistomes and Plasmidomes from a Human Tertiary Hospital and Companion Animal Veterinary Hospital in London, UK. Antibiotics (Basel). 2026 Jun 2;15(6):568.
2. https://www.who.int/health-topics/one-health#tab=tab_1
3. https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/one-health
4. https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/2187e4e5-819d-46e0-a981-61fbd041470a/content
5. Raoofi S, Pashazadeh Kan F, Rafiei S et al. Global prevalence of nosocomial infection: A systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2023 Jan 27;18(1):e0274248.
Leia também