O seu leite materno está a alimentar o microbioma do seu bebé
O seu leite materno não é apenas alimento, é um ecossistema vivo. Cada mamada leva bactérias diretamente para o intestino do seu bebé. Estudos científicos recentes revelam agora exatamente quais são as bactérias que chegam, se instalam e moldam a saúde do seu filho de dentro para fora.
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Já sabe que o leite materno é extraordinário. Mas os cientistas acabaram de revelar algo que vai além da nutrição: o seu leite está repleto de bactérias, e essas bactérias viajam diretamente para o intestino do seu bebé, instalam-se lá e começam a moldar a saúde dele logo nas primeiras semanas de vida.
Um importante novo estudo 1 publicado na Nature Communications, que acompanhou 195 pares de mães e bebés ao longo de seis meses, utilizou tecnologia suficientemente avançada para distinguir as «impressões digitais» bacterianas individuais e rastreou-as, uma a uma, do leite até ao bebé.
O pequeno morador que mantém tudo unido
Entre todas as bactérias que os cientistas encontraram, uma destacou-se: a Bifidobacterium longum. Estava presente no intestino de 98 em cada 100 bebés com um mês de idade.
Mas o que a torna notável não é apenas a sua prevalência, mas sim o que ela faz. Os bebés cujo intestino era dominado por esta espécie, especialmente por uma subespécie chamada B. longum subsp. infantis, apresentavam um microbioma intestinal que se manteve notavelmente estável ao longo dos meses seguintes.
Estabilizou-se, em vez de oscilar. Porquê? Porque esta bactéria desenvolveu uma capacidade especial para decompor os açúcares naturais do leite materno, açúcares que, ao que parece, existem precisamente para a alimentar.
Quanto mais tempo as mães amamentavam exclusivamente, mais esta espécie prosperava. Os bebés que deixaram de ser amamentados mais cedo apresentavam comunidades menos estáveis a estabelecerem-se. O que dá de comer ao seu bebé determina quem se instala e quem fica.
Aviso legal
No Biocodex Microbiota Institute, reconhecemos que a amamentação, incluindo a amamentação prolongada, nem sempre é possível ou adequada para todas as mães e famílias. Este artigo tem como objetivo partilhar as mais recentes descobertas científicas sobre o tema, respeitando a diversidade das experiências de alimentação e as circunstâncias individuais.
Do seu leite ao intestino deles: uma linha direta de herança
É aqui que a investigação se torna verdadeiramente surpreendente. Utilizando uma técnica capaz de distinguir «gémeos» bacterianos — estirpes tão semelhantes que parecem idênticas nos testes convencionais —, os cientistas descobriram algo que nunca tinha sido confirmado com esta precisão: a mesma estirpe detetada no leite materno foi também encontrada, semanas mais tarde, a viver no intestino do bebé. Não se tratava apenas de uma espécie semelhante. Era a mesma identidade genética. As suas bactérias sabem onde o seu bebé está e vão por lá.
Descobriram também algo inesperado sobre a direção. Algumas bactérias partilhadas pertenciam a espécies normalmente encontradas na boca, sugerindo que, quando o bebé mama, os micróbios da boca da mãe voltam para o leite. A amamentação não é uma transmissão unidirecional. É uma interação entre dois microbiomas, fluindo em ambas as direções a cada mamada.
O modo de nascimento também deixa a sua marca aqui. Os bebés nascidos por via vaginal mantiveram as suas bactérias intestinais por um período significativamente mais longo; a sua comunidade microbiana aos seis meses parecia-se mais com a que tinham aos um mês.
Os bebés nascidos por cesariana apresentaram um quadro mais variável, com menos estirpes a persistir. Nenhuma das situações constitui um veredicto. Mas a forma como um bebé vem ao mundo molda o microbioma que ele carrega ao longo da vida.
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Os genes com que o seu bebé nasceu
Todos os bebés incluídos no estudo, incluindo os dois terços que nunca tinham recebido um único antibiótico, possuíam genes associados à resistência aos antibióticos. Isto pode parecer alarmante. Mas não é. Estes genes, conhecidos coletivamente como «resistoma», são uma característica normal e ancestral do intestino humano, muito mais antiga do que os próprios antibióticos. O que os cientistas se propuseram a compreender foi simplesmente: de onde vem o resistoma de um recém-nascido?
Resistoma
O conjunto de genes de resistência aos antibióticos presentes num microbioma. Antigos e comuns, estes genes existiam muito antes do desenvolvimento dos antibióticos. Os bebés já os possuem desde o nascimento. O que este estudo demonstra é que a amamentação ajuda a mantê-los sob controlo.
A resposta, em grande parte, é o leite materno. As mães e os seus bebés partilhavam entre si muito mais genes de resistência do que os pares sem laços de parentesco, o que constitui uma prova clara de que a alimentação é uma via de transmissão. Mas eis o que mais importa: os bebés cujo intestino era dominado por Bifidobacterium, precisamente a bactéria que o leite materno cultiva, apresentavam um número substancialmente menor de genes de resistência do que aqueles com outras comunidades microbianas.
A amamentação não se limita a desenvolver um microbioma saudável. Ela substitui ativamente um microbioma menos benéfico. Cada mamada é, no sentido biológico mais literal, um ato de proteção.